RD Congo. Surto de ébola está a espalhar-se a um ritmo sem precedentes

RD Congo. Surto de ébola está a espalhar-se a um ritmo sem precedentes

Dois meses e meio após a declaração do surto de Ébola, a situação no leste da República Democrática do Congo (RDC) é mais crítica do que nunca. O surto está a espalhar-se a uma velocidade alarmante e sem precedentes, apesar dos esforços incansáveis das equipas médicas na linha da frente.

RTP / Adicionar como fonte informativa
Gradel Muyisa Mumbere - Reuters

Segundo a Organização Mundial da Saúde, tinham sido reportados 3.605 casos confirmados até 1 de agosto, fazendo deste o maior surto de ébola alguma vez registado na RDC, ultrapassando a epidemia de 2018.

Em apenas 11 semanas desde a declaração do surto, morreram quase 1.500 pessoas. 

Este número de mortes é muito maior do que em períodos comparáveis de surtos anteriores; o devastador surto de Ébola de 2014 na África Ocidental provocou 279 mortes no mesmo período.

Mais de 1.400 membros da equipa da Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão atualmente mobilizados na resposta ao surto. 

A MSF opera sete centros de tratamento de Ébola (CTEs) e mais de 15 unidades de isolamento em Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul e Tshopo, com uma capacidade total de mais de 480 camas.

Desde o início do surto, as equipas da Médicos Sem Fronteiras admitiram mais de 1.362 doentes, incluindo 554 casos confirmados, e apoiaram a recuperação de 282 sobreviventes após o tratamento e os cuidados.


A MSF apoia o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo nas atividades de vigilância e rastreio, mobilização comunitária, formação e esforços para garantir o acesso seguro a outros serviços de saúde essenciais. Surto não mostra sinais de abrandamentoSegundo a organização Médicos Sem Fronteiras, “novos casos suspeitos estão a ser reportados quase diariamente em novos locais, fora das cadeias de transmissão já identificadas”.

Para evitar mais perdas de vidas, a resposta deve ser mais rápida do que a taxa de transmissão atual. A resposta médica internacional deve ser ampliada sem demora, e muitas lacunas críticas ainda precisam de ser abordadas.

Apesar dos esforços na triagem e no rastreio de contactos, estes continuam a ser insuficientes para conter a epidemia. No centro de tratamento de Ébola da organização Médicos Sem Fronteiras, em Bunia, 90 por cento dos doentes internados não tiveram os seus contactos rastreados, enquanto em toda a província de Ituri, apenas 59 por cento dos contactos foram rastreados.

Há uma necessidade urgente de um maior envolvimento comunitário. Uma resposta eficaz só será possível se for construída e liderada por organizações locais. Sem as comunidades no centro da resposta, a vigilância e o rastreio de contactos continuarão a deixar passar casos.

Uma melhor integração das comunidades locais é essencial para garantir que os casos são detetados o mais cedo possível e acompanhados de forma rigorosa.
Surto está a agravar crise humanitária em curso
A malária, o sarampo, a cólera, a desnutrição e outras doenças evitáveis e tratáveis continuam a causar morbilidade e mortalidade significativas.

Para a Médicos Sem Fronteiras, “o apoio contínuo às unidades de saúde é também crucial para que possam continuar a prestar serviços de saúde essenciais durante toda a resposta e proteger os profissionais de saúde”.

O acesso continua a ser uma questão crítica, principalmente em zonas remotas, onde a chegada da estação das chuvas dificultará a locomoção e poderá interromper as operações.


“O fornecimento de material médico, bem como de apoio logístico, é fundamental. Incentivos e apoio aos profissionais de saúde na linha da frente são essenciais. É necessário garantir de forma clara que as restrições fronteiriças, as medidas sanitárias ou os entraves administrativos não impeçam a rotação de equipas humanitárias, as referenciações médicas ou a entrega de mantimentos. Por ora, a situação mantém-se incerta”, defende a organização não-governamental.

O reforço da vigilância epidemiológica, a melhoria do envolvimento comunitário e a garantia de acesso para o pessoal humanitário são prioridades máximas.

“A resposta está a expandir-se, mas ainda não está a chegar às comunidades com a rapidez suficiente para interromper as cadeias de transmissão. É preciso agir imediatamente. Cada dia perdido permite que o vírus se mantenha um passo à frente e que mais vidas se percam desnecessariamente”.

c/agências
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